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O Fim da Escala 6x1: a economia aguenta essa mudança?

Nesta quarta-feira (14/10), foi aprovado o fim da escala 6x1 no congresso nacional, ou seja, a jornada baseada em 6 dias de trabalho e 1 dia de folga foi proibida, demonstrando a conquista de uma luta histórica da classe trabalhadora brasileira. A proposta prevê uma diminuição gradual de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. O questionamento que fica é: o que essa mudança impacta na economia sobretudo nos custos operacionais e no desemprego?

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10/16/20264 min read

Percebem-se críticas em relação à redução dessa jornada e elas se concentram na possibilidade de aumento dos custos de produção, queda da atividade econômica e crescimento do desemprego. No entanto, um estudo elaborado por Felipe Vella Pateo, Joana Simões de Melo e Juliane da Silva Círiaco, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em fevereiro de 2026, apresenta estimativas que ajudam a dimensionar esses efeitos e analisa os impactos da diminuição semanal de 44 para 40 horas com a manutenção dos salários.

A nota técnica considera que a redução das horas trabalhadas eleva o custo por hora de trabalho, haja vista que os trabalhadores trabalham menos mantendo a sua remuneração. Em seguida, estima quanto esse aumento representa nos custos operacionais de cada setor, considerando o peso dos gastos com mão de obra no total.

Os resultados indicam que, embora o custo médio do trabalho por hora aumentasse 7,84%, o impacto sobre os custos operacionais totais seria inferior a 1% em grandes setores empregadores, como segmentos da indústria e do comércio, que reúnem mais de 13 milhões de vínculos de trabalho. Entretanto, esse efeito varia conforme a atividade econômica, podendo ser mais expressivo em setores que dependem intensamente da mão de obra.

A pesquisa também aponta diferenças relevantes entre alguns setores da economia. Segundo as estimativas do Ipea, a aplicação da escala 5x2 poderia elevar os custos operacionais totais em 6,65% no setor de vigilância, segurança e investigação, 6,30% nas atividades de seleção e agenciamento de mão de obra e 5,97% nos serviços para edifícios e atividades paisagísticas, que incluem limpeza. Em contrapartida, o aumento estimado seria apenas de 0,74% na fabricação de produtos alimentícios e de 0,41% no comércio por atacado. Esses valores representam o impacto direto estimado sobre os custos operacionais, e não aumentos previstos nos preços ao consumidor.

Os números mostram que, apesar de alguns setores sentirem mais os efeitos da mudança, o aumento dos custos está longe de significar um colapso da economia. Em boa parte dos setores, o impacto sobre as despesas das empresas é relativamente pequeno, o que indica que esses custos podem ser absorvidos sem necessariamente comprometer suas atividades. É claro que a adaptação não será igual para todos, especialmente para os pequenos negócios. Nesse sentido, o Congresso Nacional aprovou medidas de apoio aos microempreendedores, como a ampliação do limite de faturamento do MEI e o perdão de determinadas dívidas tributárias. Essas duas iniciativas, embora não resolvam todos os desafios enfrentados pelos pequenos empresários, podem ajudar a aliviar dificuldades financeiras e criar melhores condições para que se adaptem às mudanças.

Outro ponto a ser analisado é a relação entre a redução da jornada e o desemprego. Nesse debate, a experiência brasileira de 1988 oferece uma referência histórica. Naquele ano, a Constituição Federal reduziu a jornada máxima semanal de 48 para 44 horas. Um estudo publicado em 2003 por Gustavo Gonzaga, Naércio Menezes Filho e José Márcio Camargo, na Revista Brasileira de Economia, investigou os efeitos dessa mudança e não encontrou aumento da probabilidade de desemprego entre os trabalhadores afetados no curto prazo, considerando os 12 meses posteriores à alteração constitucional.

Além de não provocar necessariamente um aumento do desemprego, a redução da jornada pode estimular a contratação de novos trabalhadores. Isso ocorre porque, para manter o mesmo volume de produção ou garantir o funcionamento contínuo de suas atividades, algumas empresas poderão precisar ampliar suas equipes, compensando as horas de trabalho que deixariam de ser realizadas pelos funcionários atuais. Essa possibilidade é conhecida na economia como partilha do trabalho (work-sharing), isto é, a distribuição do trabalho entre um número maior de pessoas. Caso esse movimento resulte em novas contratações formais, poderá contribuir para a redução do desemprego e para o aumento da arrecadação de contribuições previdenciárias e de outros tributos relacionados ao emprego e à renda, o que beneficia as receitas públicas.

Um outro aspecto importante nessa pauta é a possibilidade de aumento da produtividade. Um relatório publicado em junho de 2021 pelo instituto britânico Autonomy e pela organização islandesa Alda analisou duas experiências realizadas na Islândia entre 2015 e 2019, envolvendo mais de 2.500 trabalhadores que passaram de uma jornada de 40 para 35 ou 36 horas semanais, sem redução salarial. Os resultados indicaram que a produtividade e a prestação de serviços foram mantidas ou melhoraram na maioria dos locais participantes. Segundo o relatório, isso foi possível, em parte, pela reorganização do trabalho, com reuniões mais curtas, eliminação de tarefas desnecessárias e melhor distribuição das atividades. Junto com a redução da jornada também notou-se melhorias no bem-estar, com diminuição do estresse e aumento do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Do ponto de vista econômico, esses resultados sugerem que trabalhar menos horas não significa necessariamente produzir menos e com ineficiência.

Em conclusão, durante décadas, a escala 6x1 significou, para milhões de trabalhadores brasileiros, abrir mão de boa parte do tempo que poderiam dedicar à família, ao lazer, aos estudos e ao próprio descanso, o que demonstra um custo social que vai muito além do tempo efetivamente trabalhado e da produção econômica. Diante disso, os custos operacionais da redução da jornada, embora devam ser considerados, são pequenos e absorvíveis diante da transformação social que essa mudança pode proporcionar. Afinal, o desenvolvimento de um país não deve ser medido apenas por sua capacidade de produzir riquezas, mas também pelas condições de vida que oferece àqueles que as produzem.